O PATRIARCA
O PATRIARCA
Se eu voasse iguais os pássaros com certeza pegaria o fluxo da correnteza para encontrá-los meus avós… os ilustres Manoel Pedro e Divina da Silva…
Este ano fará 56 anos que o meu super avô Manoel Pedro partiu exatamente no dia 11 de junho de 1970 deixando um grande legado com seus exemplos, suas obras e sua conduta. Quando falo do meu avô Mané falo também da minha avó Divina, que era uma parceria indissolúvel e inquebrável, de fibra que foi muito marcante à nossa família! Pois eles foram conforme manda o figurino, “Até que a morte os separe” e assim foi cumprido...
Manoel Pedro da Silva (in memories)
Meu avô paterno o qual me espelhei, admirei, admiro pois, tenho vivo todos seus exemplos, sua conduta, seu caráter e sua índole, ele era meu ídolo, tinha postura, respeito, se comportava como um Lord e exigia isso de mim e dos meus irmãos.
A vida não pára, não termina e segue em frente, evoluindo tanto quanto pessoa, quanto físico, intelectualmente, a cidade, o mundo, nisso orgulhosamente quero mandar meus efusivos parabéns aos meus avós.
Se não fosse o empenho, a energia, o caráter, a educação, a disciplina e a alma dos nossos patriarcas Manoel Pedro e Divina da Silva, certamente seria pouco provável que fossemos o que somos hoje, por isso, externo em nome dos meus irmãos nossa profunda gratidão!
Peço suas bênçãos e a permissão para dedicar algumas linhas, palavras, pela passagem vitoriosa e toda herança deixada e edificada a cada membro, filhos, netos e bisnetos.
A maior herança que herdamos de vocês nossos antepassados não tem valor material, aliás vale muito mais. O prestígio de sermos cidadãos de bem, honestos, com ótimo caráter, de sermos humildes e educados nos fez grandes pessoas.
O detalhe é que não se trata de uma auto avaliação, de confete de egos, é o resultado de um trabalho a longo prazo, de décadas…. Acho que valeu e está valendo a pena ter tido vocês como exímio professores, é sem dúvida um presente de Deus.
Meu avô o qual sempre admirei, foi um homem sério, era tão sério que não ria nem na frente do espelho, brincadeiras a parte, ele foi um excelente chefe de família, soube conduzir a família com maestria, liderança e muita objetividade, super responsável, centrado em seus compromissos, uma pessoa muito justa e zeloso com os que o cercavam e com suas amizades.
O vô Mané tinha o pavio curto demais, era bravo até umas horas, era de sua natureza, a molecada infernizava com o futebol, lembro que na época o muro da casa tinha uma altura média, durante uma semana presenciei a bola cair no quintal umas quatro vezes e isso o deixava profundamente irritado, nessas quatro vezes, uma a vidraça da sala estilhaçou com o excesso de força no chute, aliados a má pontaria dos craques mirins, o clima ficou tenso.
Meu avô antes dos estilhaços, devolvia as bolas, dava umas broncas e avisava:
Olha essa bola molecada se quebrar o vidro, vocês vão ver! E repetia esse dito, por várias vezes durante o dia!
E ficava de olho, porque o futebol começava de manhã e ia até o anoitecer com um revezamento de turmas, do pessoal que estudava de manhã, à tarde e os dois grupos juntos a noite, nesse período ainda não participava porque estava na faixa dos 4 para 5 anos e não saía na rua.
Depois que quebraram três vidros num só tiro (chute), nunca mais nenhuma bola voltava íntegra. Quando batia na janela e caía no quintal, meu avô tinha reservado um punhal de cabo de osso só para o cumprimento de suas promessas.
A molecada nem precisava transformar os vidros em cacos, bastava apenas a bola transpor o muro, perdi a conta das bolas que voltava furada para a decepção da molecada e o fim do futebol. E meu avô tinha uma máxima, quando a bola caía no quintal, ele a colocava embaixo do braço esquerdo e com o punhal na mão direita, chegava até o portão, olhava para os lados e desferia um único golpe que era o suficiente, antes porém, não ficava um jogador para assistir o fim da pelota e vê-la ser arremessada no meio da rua e ouvir a máxima proferida por ele, em tom alto e claro:
O véio Neco falou, tá falado!
O vô Mané era justo, primeiro avisava e depois cumpria sem revogação o que prometia…...
Dava aquela bufada de praxe, estufava o peito e olhava com a maior cara forasteiro e não perdia a pose pra manter o respeito!
Mas tinha um bom coração. E naquela época existia um detalhe chamado "respeito", se um vizinho fosse fazer qualquer tipo de reclamação, se o filho estivesse errado, os pais, os pegavam pelas orelhas e os levavam até a presença do ofendido, primeiro se retratavam e depois fazia o filho pedir desculpas fora o corretivo que variava entre cintos, chinelos, varas, palmadas etc. Esse bom comportamento era quase unânime e fazia parte da educação da grande maioria das famílias, o respeito, a ordem e a educação eram sinônimos de paz.
Dessa forma deixo aqui meu breve relato, uma forma de dizer muito obrigado!
O Estilo! ( bem nos moldes do meu avô ).
O Estilo é uma formidável derivante na vida das pessoas,
Que vai fazendo parte do dia a dia,
De forma notável.
Benfazeja, afável
O Estilo, não cai do céu
E como um véu,
Representa uma referência
Seja na moda
Seja na música, na alimentação, na dança, no falar, no desfilar e no olhar.
O estilo, é um presente bruto,
Um presente divino
Uma dádiva personalizada
Que o tempo vai lapidando,
Estampando na sociedade, nos fãs, nos corações.
Preste atenção,
Quando se tem estilo,
Se tem atitude, coragem, valentia, ousadia
Que um dia,
Quem diria o espelho
Fazer acreditar que está tudo certo.
Correto, pois o papo reto,
Também é um estilo
É personalidade, afinidade
Neste mundo que tudo vê
Tudo critica, tudo manipula
E com justiça também aplaude
Porque um Estilo,
E não passa despercebido…
Grato meu avô!
@PietrodeLucca ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
opoetalk520.substack.com
#opoetaluizkonz520.blogspot.com
A família do Manoel Pedro e da avó Divina, meu tio José Carlos, meu pai Marcelo, minha mãe Diva de Souza e minha tia Cândida Maria, esses foram as bases da nossa geração e o cabeçalho de nossa árvore genealógica, na qual tenho infinita gratidão e um orgulho muito grande de todas essas pessoas, sem dúvida alguma foram as bases do que somos hoje.
Posso até arriscar em dizer que éramos ricos e abastados, pelas atitudes, exemplos de civilidade que fez com que cada um dos nossos 9 irmãos crescerem como pessoas de e do bem, retribuindo o orgulho aos nossos entes, onde quer que eles estejam.
É difícil mensurar a importância de todo esse benfazejo presente de Deus, mas aos poucos fomos desfrutando e galgando com o tempo como se fosse um curso, uma pré escola ou uma sólida base como uma universidade, que fez cada um de nós (9 irmãos), ser o que somos, todos íntegros e respeitados, bem vindos e reconhecidamente queridos por onde quer que passamos.
Meu avô era carinhoso comigo ao modo dele, seco e sério, demonstrava sua afetividade com todos sem deixar divagar e muito menos dispersar sua forma de ser, seu lado metódico sempre foi o seu forte.
Muitas e muitas vezes fui convidado por ele para aprender a jogar xadrez e damas, ele se esforçava ao máximo para me ensinar, eu até começava bem, tentava mas era muito difícil, colocava as pedras nas quadras erradas, misturava tudo e meu avô enfumaçava, ele não tinha muita paciência com o jardim da infância, mas tentou e muito comigo.
Com o violão foi a mesma coisa, como exímio violonista, é claro que gostaria que seu neto seguisse seus passos, então, uma ou duas vezes por semana me chamava para passar umas aulas de violão e quem disse que eu entendia alguma coisa, com a paciência nos limites ele mandava eu colocar os dedos nas cordas para formar os acordes, explicava o que era sustenido, bemol, nota aumentada, fá menor, sol maior, sequência Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó e qual Santo fazia eu entender isso?
Era extremamente difícil e complicado, aí meu avô visivelmente irritado, se levantava e saía pisando duro, ia fumar um estoura peito (cigarro da época) e voltava com o encerramento da aula, minha avó Divina ficava só na meia folha, olhava e nada falava. Ali na rua João Mafra 238 fomos felizes, porque patriarcas como os nossos são coisas de Deus.
Para começar ele projetou e construiu a casa que existe até hoje na Rua João Mafra 238 no bairro Jardim da saúde, com a nossa família.
Como já foi mencionado, foi um grande músico, exímio jogador de xadrez, excelente violonista, flautista e um grande escritor e poeta... Muito inteligente e polivalente para um cidadão que aprendeu na raça, pois não tinha uma formação acadêmica mas todo seu esforço, eram refletidos em suas qualidades e isso era um fator incontestável por sua moral Ilibada, pelo carinho e o respeito que todos tinham por ele, mas era genioso, perfeccionista e bravo até umas horas.
Esse foi o meu avô Manoel Pedro, o vô Mané ou o velho Neco, ele curtia muito conversar e estar comigo, que depois de muitos anos, fui entender que ele foi meu melhor amigo além do meu pai…
Textos Diva/Divina
Antes porém quero tecer algumas palavras sobre nossa matriarca a Vó Divina, que para não perder o costume Ela também tinha seu lado bravo de ser mas, era mais amena que meu avô, cozinhar era seu forte.
Minha avó era uma grande quituteira de forno e fogão, chegava a nível de um Chef, com um detalhe, sem sequer ter frequentado uma faculdade, Divina da Silva era seu nome e tudo que se pode pensar em termos de pratos ela fazia, pois além dos maquinários, ela possuía uma vasta experiência e conhecimento desde um ravioli até bolos de aniversário, todas as festas era ela que confeccionava todos os comes e bebes. Eu assistia tudo aquilo como se fosse uma aula e lembro até hoje, se uma festa era no sábado, na sexta ela começava com os canudinhos de doce de leite, patês de anchova, sardela, pastéis, coxinhas, brigadeiro, quindins, sanduíches, carne louca, o tradicional bolo com recheio de goiabada, o famoso cuscuz com direito a forma furada e tudo, às vezes dependendo da ocasião, até um saboroso pernil rolava para o deleite dos convidados.
Na verdade, a vó Divina fazia um banquete sozinha e com a maior alegria, pois a sua energia refletia no produto final, ficava tudo muito saboroso e como sempre não sobrava nada. Quando saía o "bizu" que teria festa na casa da vó Divina, a superlotação era fato, casa cheia e naquela época tinha os "bicões", que chegavam sem ser convidados mas tinha espaço para todos, ali no 238 nunca presenciei ninguém ser barrado por não ter sido convidado.
Os almoços de domingo!
Nos almoços de domingo, era legal ver aquele monte de farinha de trigo sobre a mesa untando suas massas para não grudar, era assim um misto de alquimia com obra de arte e no dia seguinte aquele molho de tomate puro e peneirado estilo italiano, bem no padrão natureba, sem extrato e nada pronto e muito menos industrializados.
Ela parecia que constantemente me dava aula (e dava de fato) pois aprendi muito e lembro de muitos detalhes, dicas e macetes da culinária que assistia minha avó fazer com tanta naturalidade e maestria que fazia jus a seu nome Divina.
Com o passar dos tempos, o avanço da idade, a morte do meu avô e a limitação física fez a minha avó dar uma desacelerada do fogão e com a dor da perda ela se limitou viver de alimentos rápidos como sopas e caldos, de vez em quando uns bolinhos de carne ou espinafre, não abandonando seu hobby de sempre fazer um bolo de fubá e assim foi até seus 85 anos.
Vó Divina era muito atenciosa com todos, quando saía para visitar amigos ou parentes, sempre fazia e levava seu famoso bolo de fubá com erva doce, pegava eu, o Beto e íamos passear no extremo leste em São Mateus, às em Santo Amaro, às vezes levava meus outros irmãos, pois ela fazia questão que todos revezassem.
Sessão gourmet com a vó Divina
Como sempre nossa quituteira vó Divina em seus áureos tempos, organizava sozinha todos os quitutes das festas, aniversários, particularmente em sua big casa que ficava com um perfume de comida maravilhoso, um tempero que navegava pelos cômodos, preparava os pães de ló, as massas dos canudinhos que era a mesma dos pastéis, os recheios dos pastéis, o doce de leite e o creme de confeiteiro para os canudinhos, o “Mise en place” do cuscuz etc, enfim, tudo de forma organizada, a escadinha (molecada) da casa de baixo ficava ali só de zóio aguardando a vasilhas, as colheres de pau, para “raspar”, nisso eram massas de bolos, suspiros com raspas de limão, chocolates que propositalmente vovó deixava no fundo só para ver seus netinhos se lambuzarem com suas impecáveis receitas….
E assim com estes exemplos crescemos cada um com um fiozinho da arte da vó Divina de cozinhar, mas ali mesmo na casa de baixo também tínhamos uma excelente e grande cozinheira, a nossa mãe.
Diva de Souza a nossa professora de culinária
Quem de nós, não sente saudades daqueles nhoques onde assistimos de camarote nossa mãe enrolar, esticá-los e cortar gomo a gomos numa rapidez e milimetricamente com uma faca e depois deixá-los pulverizados com farinha de trigo sobre a mesa do sábado para o domingo juntamente com aquela carne assada que ficava marinando exalando um cheiro tão marcante do tempero que preenchia a casa e vazava pelo quintal que não saem da memória, igualmente aos saborosos e apetitosos bife a rolê que mais lembrava uma especiaria defumada com aquele molho viscoso, depois de pronto era digno de um restaurante de classe A e que eram impossível comer um só, dos manjares brancos que simulava uma neve com uma gostosa aspereza que o coco ralado produzia com aquela calda docinha que contrastava a cor pelo açúcar queimado mais aquelas saborosas e graúdas ameixas que não só enfeitavam, mas davam um equilíbrio à sobremesa, era um simples doce servido geladinho mas a minha mãe fazia com tanta propriedade que era inimitável e incopiável quase que uma obra de arte, mas era!
OS MOMENTOS FINAIS DA VÓ DIVINA
A vó Divina foi uma guerreira, no final de sua vida, era admissível que suas forças tinham sido diluídas pelo tempo, mesmo assim com todo teor do avanço da idade, ela fazia ou tentava fazer o que sempre fez de melhor, “Cozinhar”, mas a saúde física e mental já não eram mais as mesmas das décadas anteriores, o peso dos quase 85 anos de idade já haviam depreciados sua estrutura.
Ela tentava cozinhar, mas já estava sendo um fator de risco, pois quando ia fazer seus os quitutes, primeiro abria o gás do forno e depois saía a procurar o fósforo, por várias vezes eu e meus irmãos presenciamos algumas pequenas explosões, quando ela acendia o fósforo para aquecer o forno só ouvia o “bumm”, o susto era geral, os neguitins ficavam com os olhos arregalados e os coraçãozinho batendo aceleradamente, graças a Deus nunca houve nenhum incidente e nem acidente grave.
A combinação fogo, alimento e tempo estava gerando muito conflito interno em minha avó, suas faculdades oscilavam, suas obras culinárias passavam do tempo no forno e acabavam queimando. Com o corpo fraco e debilitado, o prenúncio de que sua missão estava findando, a cada dia ficava mais claro mas, compreensivelmente aceitável pelo histórico e jornada, aos 86 anos vó Divina veio à falecer.
O mínimo que posso fazer é homenageá-la quando for possível e guardar com muita honra e alegria todos os seus ensinamentos e ter uma infinita gratidão por sua representatividade em nossa família, um beijo no seu coração Vovó Divina🙏🏽♥️
@PietrodeLucca ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
opoetalk520.substack.com
#opoetaluizkonz520.blogspot.com
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