O Chefe de Família "O Cerimonial"
CRÔNICAS DAS ESQUINAS Capítulo 5
Chefe de Família! "O Cerimonial"
Na Crônica das Esquinas de hoje eu trago vos um comportamento que foi um padrão de respeito, caráter, cidadania que na verdade era uma forma de manter o “controle de qualidade” da família. Uma generosa sabatina ao pretender fazer parte de uma família. A coisa funcionava com direito à reprovação e tudo mais.
Nem vou falar antigamente porque não faz tanto tempo assim, mas o sistema era "rígido" rsrs 🤭. Para entrar e fazer parte de uma família não era tão simples assim como hoje não, como conjugar o verbo ficar e transformá-lo num gerúndio que os jovens dizem "FICANDO".
Não era só chegar e literalmente "comer", tirar uma onda com a filha do outro, ficar, e sair andando e depois ir embora com aquela cara de Phodão do pedaço como se tivesse degustado um apetitoso hambúrguer e tchau rsrs 🤭.
Meu brother, a coisa quando se tratava de família era tensa. Para se tornar um membro de alguma família, a algumas décadas atrás, o “candidato” tinha que provar que era a capaz para ser apto pelo "Cacique" que era o pai da moça. Tudo era dividido em etapas, para começar, era uma sabatina puxada, talvez uma das provas de fogo mais difíceis e desafiadoras para o pretendente.
Os mais hábeis e espertos tratavam logo de fazer amizade com algum membro da família, (geralmente irmãos, primos), na maioria das vezes equivalia um "pré sim", já estava estabelecido entre o casal, o problema maior era as bênçãos dos pais, mais especificamente do sogrão.
O pretendente sempre chegava devagar e arisco pois, dependendo da família a chapa esquentava e o "couro comia", antes do pedido e claro, do consentimento dos ou melhor do futuro sogrão! A voz do futuro sogro era o veredito e a decisão, quase única, como se diz no mundo jurídico, "MONOCRÁTICA".
O passo a passo deste Cerimonial é que era o mais engraçado apesar de não ter graça alguma dado o teor da seriedade. Talvez seja este o segredo que mantém algumas famílias inteiras e alicerçadas ainda!
Enfim, depois daquela 1ª instância, pega não pega, e já ter a primeira permissão "o da namorada", o pretendente partia para a 2ª instância que era o tete a tete com a sogra e o sogrão e os manos mais velhos (futuros cunhados).
Naquele dia o cunhado (não citarei nomes), no domingão combinado, ele foi conhecer o famoso Sogrão, o neguitin parecia que estava andando pra não chegar rsrs (só o bigode do nego véio, impunha respeito), forte, sarado, ex-pugilista, bom de tapa, muito ciumento e zeloso com as filhas rsrs.
Depois de meia dúzia de bicadas (beijos) na namorada, o pretendente entra na casa do sogrão. Antes porém ele suava mais que tampa de cuzcuz, o futuro sogrão era respeitadíssimo na área é brigar na mão não tinha como, aliás fora de cogitação.
Passado a 2ª instância, depois dos apertos de mãos, o "neguiitin" se acomodou na poltrona e o silêncio foi quebrado com o "Boa tarde" seco e rouco do sogrão, zero de sorriso (cara fechada e séria) rsrs. Olhando nos olhos 👀 começou a audiência kkk.
Perguntando o que o pretendente fazia da vida trabalhava com o quê, se estudava, o quê queria ser da vida, naquela época se ele respondesse músico, pagodeiro ou jogador de futebol já era kkk "a casa caiu".
O cara era phoda, trabalhador e esforçado já estava no último ano do curso de Direito, o sogrão deu aquela suspirada de alívio e continuou a sabatina, quem eram os pais, onde morava, se tinha vícios etc etc. Porém, depois que o neguiitin falou que praticamente já era um advogado, aí mudou o cenário.
Foram para a sala de jantar 🍽 e rolou aquele almoço! Ainda no mistério, o sogrão com todos a postos, pediu um minuto de silêncio, fizeram uma oração, na sequência passou a voz para o pretendente… O neguiitin falou rapidamente das suas intenções, pretensões e formalizou o pedido de namoro, e aquela cachoeira que escorria testa abaixo sinalizando o quanto estava nervoso kkk e claro que o sarro estava garantido por muitos anos kkk.
Enfim, o sogrão tomou a palavra de volta para finalizar, de forma simples e modesta como um verdadeiro chefe de família. Com um pouquinho mais de suspense, aqueles dois minutos pareciam uma eternidade até que:
“Pra mim já basta!” Preta (sogra) pegue as taças, garoto, você tem nosso consentimento, mas deixo bem claro que se você escorregar, vai lhe custar muito caro! kkk. Estamos entendidos? A partir de agora você é um dos nossos…
Todos Brindaram… E o sogro invocado mandou servir aquela feijoada e assim seguiram com o noivado, até o casamento. Todas essas etapas regadas a grandes festas, festas marcantes e famílias vivem juntas e bem, até hoje!
Eu narrei esta história, mas esse era um modelo de época que foi seguido à risca por muitas e muitas famílias do Brasil, era assim que se procedia, família tinha respeito…
@PietrodeLucca ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
opoetalk520.substack.com
pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com
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